‹ Pampa CanisCapítulo 1 de 15

L. V. Serrat

A manhã do encontro

Em 11 de maio de 2019, sob um Ford Ka estacionado na esquina da Felipe Camarão com a avenida Vasco da Gama, no Bom Fim de Porto Alegre, eu encontrei um cão que veio de uma extinção.

Era sábado. Eu ia comprar pão.

A padaria fica a três quadras da nossa casa. É a padaria do português que faz o melhor pão sovado do bairro e o pior café da cidade. Eu desci o elevador às oito e meia, atravessei a Felipe Camarão, virei na esquina da Vasco da Gama, e foi quando vi.

O Ford Ka cinza estava encostado num pedaço de calçada onde, num sábado de outono em POA, o sol bate quase rasante. Não foi o carro que me chamou atenção — era qualquer carro. Foi a coisa embaixo dele. Uma forma. Parei no meio da calçada e olhei sem entender, do jeito que a gente olha para uma mancha no chão antes de decidir se é folha ou se é bicho.

Era bicho. Estava deitada de lado, com a cabeça encostada no asfalto e os olhos abertos. Caramelo claro. Peito branco. Magra de um jeito que tinha história. A orelha esquerda estava semi-dobrada na ponta, como se alguém tivesse pegado nela com força meses atrás e ela tivesse ficado assim. Olhos abertos.

Cão dormindo na rua dorme com os olhos fechados. Cão que tem alguma chance de descansar. Olho aberto às oito e meia da manhã embaixo de um Ford Ka é cão que aprendeu que dormir custa caro.

Agachei.

Não me aproximei. Agachei na calçada, a uns três metros do carro, e fiquei. A cadela não se mexeu. Eu não me mexi. O sábado passou em volta da gente.

Uma senhora atravessou a rua na altura do meu agachamento. Carregava uma sacola plástica com cebola, alface e um pão francês envolto em papel. Não desviou do meu corpo agachado por mais de meio passo. Olhou de relance, voltou para a sacola. Um casal jovem desceu do prédio do lado discutindo em voz baixa sobre quem tinha esquecido de descer o lixo. Os dois passaram a um metro do carro, ela com mochila de academia e ele com fone de ouvido. Não olharam para baixo. Um menino de talvez dez anos passou de bicicleta, capacete azul, mochila escolar pequena nas costas, indo na direção da Redenção. Olhou para mim porque eu estava agachada na calçada — não olhou para o carro. Um homem de uns sessenta saiu da padaria do português com pão sovado fresco e atravessou para o lado da Vasco da Gama sem desacelerar. A funcionária da pet shop da esquina puxou a cortina metálica e começou a colocar as plaquinhas com promoção de antipulgas. Olhou para o sábado. Não olhou para o asfalto.

Eu fiquei agachada uns minutos, talvez dez, talvez mais — não estava contando.

Hoje sei que aquela é uma manhã que se repete em milhares de calçadas em milhares de cidades latino-americanas, todos os sábados de todos os anos, sem que ninguém pare. O caramelo é o cão que está aqui há tanto tempo que virou uma propriedade do espaço, como o meio-fio. Em maio de 2019 eu fui exceção estatística, não regra moral. Não me orgulhei depois nem me orgulho agora. A regra moral seria que toda calçada parasse — e nenhuma para. Naquela manhã eu também tinha passado por ali. Foi uma terça, ou uma quarta. Eu também não tinha visto.

Tirei o celular do bolso e mandei mensagem para o Tomás. Tomás Beltrán é meu companheiro. É argentino, músico de candombe, do tipo que toma decisão devagar e fala pouco quando a coisa é grave. Escrevi quatro frases curtas: achei uma cadela. tá embaixo de um carro. não sei o que faço. me liga quando puder.

Ele respondeu ok.

Só isso. Ok. Sem ponto final. Sem pergunta. Sem oferta de ajuda. Fiquei olhando para a tela achando que ele ia continuar digitando, aquele balãozinho cinza de “está digitando” que aparece e desaparece. Não apareceu. Olhei para a cadela debaixo do carro. Olhei de novo para a tela. Olhei para a esquina, para a senhora da sacola que já tinha desaparecido, para o português que devia estar achando estranho que eu não tinha entrado para comprar pão. Voltei para a tela. Ok.

Oito minutos depois, ele me ligou chorando.

Os oito minutos entre o ok e a ligação é assunto para o último livro desta coleção. Aqui só preciso registrar que ele ligou, que disse uma frase quebrada — vai com calma, Aurora — e que desligou sem dizer mais nada. Quando desliguei, eu estava com o joelho dormente. A cadela tinha mudado de posição. Agora estava com a cabeça apoiada nas patas dianteiras, ainda de olho aberto, ainda olhando.

Liguei para a Dona Lurdes.

Conheci Lurdes por uma matéria que fiz em 2017 sobre castração comunitária no extremo sul de POA. Ela mora num terreno nos arredores da cidade com oito ou dez ou doze cães, dependendo do mês, e me chama de “guria” desde aquele dia. Atendeu no terceiro toque.

— Bah, guria, oito e meia da manhã num sábado tu liga pra que.

Contei. Ela escutou sem interromper. Sou jornalista; reconheço bom ouvinte quando topo com um. Quando terminei, ela perguntou:

— Tá assustada por quê — pelo cão ou por ti?

— Pelos dois.

— Ahã. Primeiro: não toca nela ainda. Segundo: anota meu endereço, pega Uber, vem pra cá com ela. Tenho transportadora velha aqui, tenho um vet bom que atende sábado se eu pedir.

— Como é que eu coloco ela no Uber, Lurdes.

Ela riu.

— Cusco de rua sabe bem o que é gente boa. Se ele veio pro teu lado, tu já passou no teste dele. O Uber é problema do motorista.

Foi como aconteceu. Fiquei mais uma meia hora agachada — agora sentada de fato, com as costas no muro do prédio em frente — e a cadela saiu de baixo do carro andando em câmera lenta. Três passos, parou, olhou. Mais dois, parou, olhou. Não correu. Eu também não corri. Quando ela chegou a um metro de mim, esticou o focinho e cheirou minha mão sem encostar. Cheirou a manga da blusa. Cheirou a mochila da padaria onde nunca cheguei a entrar. Sentou. Esperou.

Estendi a mão devagar e encostei na cabeça dela. Ela fechou os olhos por meio segundo.

O Uber chegou cinco minutos depois. Motorista se chamava Eduardo. Era um senhor de uns sessenta, paulistano, morando em POA fazia cinco anos. Olhou para mim, olhou para a cadela enrolada nos meus braços, e disse:

— A senhora vai me jurar que esse bicho não vai vomitar no meu carro?

— Não posso jurar. Posso pagar a limpeza se acontecer.

Pensou três segundos, suspirou, abriu a porta de trás.

— Bota um pano em cima do banco. Tem um cobertor velho no porta-malas, espera. Vamos.

Foi nesse trajeto, com Eduardo dirigindo devagar pra não acordar a passageira clandestina, que ela ganhou o nome.

Pampa.

Não foi escolha refletida. Foi a primeira palavra que me veio, olhando pela janela para a vegetação rasteira de uma praça que passamos na avenida João Pessoa. Pampa é palavra que minha mãe usava — Inés Cabral, uruguaia de Montevidéu. Pampa é planície aberta, é horizonte sem obstáculo, é lugar onde o cão pastor patrulha a perda de vista. Foi o que vi quando olhei para a cadela dormindo no Honda Fit do Eduardo: alguém que tinha vindo de uma planície longa demais.

Anos depois, em cartório, no formulário do Pasteur quando viajamos a Buenos Aires, em ficha de retorno do veterinário, ela seria registrada como Pampa Cabral. Mas naquela manhã ela ainda não era ninguém. Tinha meio segundo de olhos fechados na minha mão.

Cheguei em casa duas horas depois.

Tomás abriu a porta antes de eu encostar a chave. Estava com os olhos vermelhos. Não disse nada — olhou para mim, olhou para a cadela, abriu mais a porta. Pampa entrou andando como cão que entra em apartamento pela primeira vez na vida: sem entender que pode pisar no tapete, sem entender que existe um corredor que leva a uma cozinha, sem entender que humanos guardam comida em armários abertos só com puxador. Cheirou o ar da entrada. Cheirou o tapete. Cheirou a base da estante. Não comeu. Não bebeu. Foi até o canto da sala, perto da janela, e deitou.

Foi nesse momento, com ela esticada no chão e a luz do fim da manhã entrando rasante, que vi a cicatriz pela primeira vez.

Estava no flanco direito. Comprida, fina, paralela à coluna. Cor mais clara que o pelo em volta, com bordas precisas, como se alguém tivesse passado uma régua antes de fazê-la. A pele da região tinha um relevo mínimo, um pouco brilhante, daquelas cicatrizes que já estão velhas o bastante para terem virado parte do corpo. Olhei. Não falei nada. Tomás tinha visto também — vi ele ver. Nenhum dos dois comentou.

Naquele momento eu não sabia o que era aquela cicatriz e ia passar treze anos não sabendo. A cicatriz seria a única coisa de Pampa que eu nunca ia explicar. Ela estaria comigo até o fim, intacta, sem moldura, sem origem. Hoje sei que isso é ela: a única coisa em treze anos que ela me deu sem entregar.

Foi a única vez que mencionei essa cicatriz neste livro. As outras coisas que apareceriam no corpo dela — uma orelha que tem nome, uma escápula que tem peso, um focinho que vai ficar grisalho — todas vão receber explicação em algum lugar da coleção. A cicatriz não. É território da Pampa. Resolvi cedo que ia respeitar.

Tomás sentou no chão a uns dois metros dela. Não falou comigo, não falou com ela, só sentou. Eu fiquei na entrada da sala. Tirei a mochila vazia, larguei no aparador. Fui até a cozinha, peguei uma vasilha funda, enchi de água até o meio, levei para a sala, coloquei a uns três metros do canto onde Pampa estava. Voltei para a entrada. Sentei no chão também, encostada na parede do corredor, no ponto onde dava para ver Pampa sem que ela tivesse de virar a cabeça para me ver.

Tomás colocou um prato pequeno de ração no canto oposto da sala. A gente tinha comprado essa ração meses antes, para cuidar do cão de uma amiga uns dias quando ela viajou. Tinha sobrado meia embalagem. Tomás voltou para o ponto dele, no chão, dois metros de distância da cadela. Sentou de novo. A gente ficou assim.

Pampa olhou para a água. Olhou para a ração. Olhou para nós dois. Não se mexeu.

Ficamos os três no chão da sala por um tempo que não consigo precisar. Quarenta minutos, talvez uma hora. Em algum momento Tomás se levantou e voltou da cozinha com duas xícaras de café que já estavam frias quando ele as serviu — ele tinha esquecido na cafeteira de manhã. Ele me entregou uma. Voltou pro lugar dele. A gente bebeu o café gelado em silêncio enquanto Pampa decidia se podia confiar na vasilha.

Em algum momento ela mudou de posição. Levantou a cabeça, olhou para a janela, deitou de novo. Cinco minutos depois, levantou, andou até a base da estante — uns dois metros mais perto da água —, deitou outra vez. A respiração dela ficou um pouco mais compassada. Os olhos continuavam abertos, mas começaram a abrir e fechar em ritmo lento, como olhos que estão pensando em descansar e não conseguem se permitir ainda.

Foi nesse intervalo, com Pampa quase fechando os olhos pela segunda vez no dia, que Tomás falou pela primeira vez desde que eu tinha entrado em casa.

— Lurdes disse o quê?

— Que a gente não force nada. Que deixe a água e a comida no lugar. Que saia da sala às vezes. Cão de rua come quando não tem plateia.

Ele assentiu.

— Tu tá bem?

— Não sei.

— Ela tá bem?

— Acho que tá começando a ficar.

Foi a conversa inteira da tarde. Tomás voltou ao silêncio dele, eu voltei ao meu, Pampa voltou para o canto da janela. Lá pelas três da tarde a vasilha de água tinha a água um dedo abaixo do nível em que eu a tinha deixado — ela tinha bebido em algum momento sem que nenhum de nós dois visse. A ração continuava intacta.

À noite, Tomás esquentou uma sopa de legumes que a gente tinha congelado na semana anterior. Comemos na mesa da cozinha, devagar. Pampa ficou na sala, deitada no mesmo canto. Não se aproximou. Não vagou pelo apartamento. Estava conservando energia daquele jeito de cão que aprendeu a não gastar à toa.

Lá pelas onze da noite, a gente foi para a cama. Apaguei a luz. Tomás adormeceu em uns cinco minutos — ele dorme assim, sempre dormiu assim, eu já sabia disso desde o início. Fiquei acordada um tempo. Em algum momento da madrugada — não sei a hora — ouvi o estalo das unhas dela no piso da cozinha, depois do corredor, depois um silêncio. Ela tinha entrado no quarto. Não subiu na cama. Deitou no chão, nos pés, numa distância calculada que era ao mesmo tempo perto e longe o suficiente.

A respiração dela ficou regular em uns dois minutos. Ouvi.

Cinco dias depois eu saberia o que ela carregava na escápula esquerda. Sete anos depois eu entenderia o que ela carregava no DNA. Treze anos depois, o que ela carregava em mim.


Os documentos da primeira manhã — o roteiro do que fiz, do que não fiz e do que faria diferente hoje, e a carta aberta para quem encontrou um cão na rua — estão em pampacanis.com/cap-1.