I. M. Cross
O Formulário Sem Campo
O formulario nao tinha campo para aquilo.
Surah Winder percebeu antes de terminar o cafe, antes de abrir a segunda janela do sistema, antes mesmo de saber se o erro era erro. Havia um tipo de ausencia que se anunciava depressa. Uma lacuna com a postura de quem ja tinha sido aceita por todos.
Na tela, a ficha de reparacao do Voo Nareth 88 aguardava classificacao.
NARETH ATLANTICA / NA-88
EVENTO: 1996 / ROTA ESTUARIO-RECIFE-SAO DARIO-LISBOA
LOTE: REPARACAO INTERNACIONAL / BLOCO RIOPLATENSE
REGISTRO: RBS-044
NOME NORMALIZADO: ROSA SALCEDO
STATUS: ENCERRADO
TIPO DE INCIDENCIA: SELECIONE UMA OPCAO
Surah olhou para as opcoes.
ERRO ORTOGRAFICO SEM IMPACTO
DUPLICIDADE NOMINAL
BENEFICIARIO AUSENTE
RETIFICACAO ADMINISTRATIVA
FORA DE ESCOPO
Nenhuma servia.
O Arquivo de Reparacoes do Estuario abria as oito, mas as pessoas chegavam em horarios diferentes, por razoes que nenhuma folha de ponto conseguia descrever. Dov Merea vinha cedo porque desconfiava de terceirizados. Breno Duarte Aram vinha tarde porque dizia trabalhar melhor quando o predio ja havia desistido de esperar dele. Surah vinha antes de todos porque o silencio das sete e vinte ainda nao tinha opiniao.
O silencio era uma ferramenta.
Naquela manha, falhava.
Chovia fino sobre Ciudad del Estuario. A agua fazia listras magras no vidro alto da sala de triagem, e os guindastes do porto apareciam atras delas como letras de um alfabeto que ninguem ensinava inteiro. O predio do Arquivo ficava a quatro quadras do antigo mercado de peixes e a duas do tribunal administrativo. Era uma distancia conveniente: perto o bastante da lei para parecer necessario, longe o bastante do cheiro para fingir neutralidade.
Surah puxou o lote fisico para perto.
A caixa 88-RIO-7 tinha sido aberta na semana anterior, depois de vinte e nove anos em deposito externo, tres contratos de digitalizacao, duas mudancas de diretor e um vazamento no subsolo. O papel cheirava a cola velha, metal e umidade. Nao havia cheiro de tragedia. Essa era uma mentira de romancista. Papel guardado cheirava apenas ao modo como havia sido guardado.
Ela retirou a pasta RBS-044.
Na capa, escrito a maquina:
SALCEDO, ROSA.
NACIONALIDADE: ARGENTINA.
STATUS REPARACAO: ENCERRADO.
OBS.: BENEFICIARIO INEXISTENTE / SEM HERDEIROS DIRETOS.
Surah ficou parada nesse “inexistente”.
Nao porque fosse raro. O mundo administrativo amava declarar inexistente tudo que dava trabalho demais. Herdeiro inexistente. Vinculo inexistente. Documento inexistente. Corpo inexistente. A palavra tinha uma eficiencia quase sensual para certos funcionarios: apagava e ainda parecia limpa.
Ela abriu a pasta.
A primeira folha era a traducao oficial do acordo de reparacao.
Por meio deste instrumento, reconhece-se o direito compensatorio relativo a Rosa Salcedo, passageira identificada no manifesto consolidado do Voo NA-88, sem beneficiarios habilitados ate a data de encerramento do bloco.
Rosa Salcedo.
Surah virou a pagina.
A segunda folha era uma copia da lista internacional de passageiros, carimbada em Lisboa, com margem esquerda comida pelo tempo.
044 - RAISSA B. SALCEDO - ASSENTO 18C - DOCUMENTO: AR/EST 66319
Raissa, dois esses. B. reduzido a inicial. Argentina por documento de emergencia emitido no Estuario.
Ela virou a terceira folha.
Registro civil anexado por consulta consular:
RAISA BRUK SALCEDO.
NASCIMENTO: PUERTO VARDOS, 1962.
NACIONALIDADE REGISTRAL: URUGUAIA.
ESTADO CIVIL: VIUVA.
OBSERVACAO MARGINAL: VINCULO FAMILIAR SOB RESERVA.
Raisa.
Um s.
Bruk inteiro.
Uruguaia.
Vinculo familiar sob reserva.
Surah encostou os dedos na borda da folha, sem tocar o texto. Nao usava luvas para documentos recentes; luvas diminuem a sensibilidade e aumentam acidentes. Dov repetia isso para estagiarios como se fosse prece. O cuidado verdadeiro raramente parecia cerimonial. Quase sempre parecia uma pessoa lavando as maos direito.
A porta da sala abriu.
“Ja encontrou um morto que nao deixa a gente tomar cafe?”, disse Dov.
Ele usava o mesmo casaco marrom desde que Surah o conhecia, embora jurasse que eram tres casacos iguais. Tinha setenta anos ou uma dessas idades que os arquivos produzem quando alguem passa tempo demais entre caixas: velho em certos gestos, impossivel em outros.
Surah nao respondeu de imediato.
Dov colocou a propria caneca sobre a mesa ao lado, viu a pasta aberta e fez a careta minima dos que preferem estar certos depois do almoco.
“Nareth?”
“Bloco rioplatense.”
“Eu avisei que esse lote vinha podre.”
“Voce disse que vinha umido.”
“No Arquivo, e a mesma coisa.”
Surah girou a lista internacional para ele.
“Aqui: Raissa B. Salcedo. No acordo: Rosa Salcedo. No registro civil: Raisa Bruk Salcedo.”
Dov nao se inclinou. So baixou os olhos. Havia uma prudencia nele que as pessoas confundiam com preguica. Surah, nao. Preguica faz menos perguntas. Prudencia escolhe quais perguntas vao custar caro.
“Raisa para Rosa pode ser normalizacao ruim”, disse ele.
“Bruk desapareceu.”
“Sobrenome some quando incomoda tabela.”
“A nacionalidade tambem mudou.”
“Isso incomoda mais.”
“E tem observacao marginal.”
Dov pegou os oculos do bolso. Quando precisava ler alguma coisa desagradavel, sempre limpava as lentes antes, como se desse ao documento uma ultima chance de nao existir.
“Vinculo familiar sob reserva”, leu.
“Sem beneficiarios habilitados”, disse Surah, apontando o acordo.
“Uma coisa nao exclui a outra.”
“Administrativamente, exclui.”
“Administrativamente, muita coisa e possivel. Ressurreicao, inclusive.”
Surah voltou para a tela.
O sistema ainda pedia uma categoria.
TIPO DE INCIDENCIA: SELECIONE UMA OPCAO
“Preciso abrir incidencia.”
“Nao abre antes de olhar o microfilme.”
“O prazo de consistencia fecha hoje.”
“Entao deixa fechar.”
Surah olhou para ele.
Dov ergueu as maos, sem defesa real.
“Nao estou dizendo para deixar errado. Estou dizendo para nao corrigir o primeiro erro antes de encontrar o segundo.”
Ela detestava quando Dov parecia Ishai antes de Ishai ter direito de estar naquela manha. Nao que pensasse nele. Pensar era voluntario demais. Ishai surgia como surgem nomes em rodapes: menores, persistentes, impossiveis de eliminar sem alterar o documento.
“Nao vou corrigir. Vou abrir incidencia.”
“Incidencia vira protocolo.”
“Protocolo deixa rastro.”
“Rastro chama gente.”
“Gente ja morreu.”
Dov ficou quieto.
Foi uma frase ruim. Nao falsa. Pior: suficiente. Surah ouviu a propria voz e sentiu aquele pequeno gosto metalico que vinha quando a precisao errava o alvo humano.
Dov pegou a pasta com cuidado e apontou para a observacao marginal.
“Aqui nao fala de morto.”
Surah leu de novo.
VINCULO FAMILIAR SOB RESERVA.
O cafe esfriava. A chuva afinava. No corredor, alguem ligou a impressora grande e ela tossiu antes de aceitar existir.
Surah abriu a base de registros associados e digitou:
BRUK SALCEDO / RAISA
Nenhum resultado.
Digitou:
SALCEDO ROSA / NA-88
Um resultado, o mesmo acordo.
Digitou:
BRUK / PUERTO VARDOS / VINCULO RESERVA
O sistema demorou.
Dov olhou para a porta, como se o tempo de resposta pudesse chamar um supervisor.
A tela devolveu uma ficha parcial.
REGISTRO ASSOCIADO: M.B.S.
DATA: 2009
ORIGEM: CASA ISKAR / PUERTO VARDOS
STATUS: RESTRITO
TIPO: VIVO AFETADO
ACESSO: INDEFERIDO PARA ESTE PERFIL
MOTIVO: PROTECAO DERIVADA
Surah nao se mexeu.
Dov murmurou um palavrao sem volume.
Ali estava.
Nao uma prova. Uma porta.
M.B.S. podia ser qualquer pessoa, se o mundo fosse generoso com coincidencias. O mundo raramente era. Puerto Vardos aparecia no registro civil de Raisa. Casa Iskar era um nome que Surah conhecia apenas como se conhece uma rua vista pela janela de um taxi: estava em algum lugar da memoria, sem ter ainda motivo para doer.
“Vivo afetado”, disse ela.
“Nao toca.”
“Eu nem tenho acesso.”
“Voce sabe o que eu quis dizer.”
Surah sabia.
Abriu o campo de incidencia novamente.
ERRO ORTOGRAFICO SEM IMPACTO
DUPLICIDADE NOMINAL
BENEFICIARIO AUSENTE
RETIFICACAO ADMINISTRATIVA
FORA DE ESCOPO
Raisa Bruk Salcedo nao era erro ortografico sem impacto. Nao era duplicidade. Nao era beneficiario ausente se havia um M.B.S. vivo, protegido por derivacao. Nao era retificacao administrativa, porque retificar ali talvez perfurasse uma protecao. Nao era fora de escopo. Nada que atravessa um morto e alcanca um vivo deveria caber nessa frase.
“Nao tem campo”, disse Surah.
Dov suspirou.
“Nunca tem.”
“Como encerraram?”
“Escolhendo o campo mais barato.”
“Qual?”
Ele nao respondeu.
Nao precisava.
Surah clicou em BENEFICIARIO AUSENTE e o painel lateral exibiu o historico.
CLASSIFICACAO FINAL: BENEFICIARIO AUSENTE
OPERADOR: M.O.
DATA: 2002
REVISAO: NAO SOLICITADA
EFEITO: ENCERRAMENTO DO BLOCO
M.O.
Duas iniciais nao deviam pesar tanto. Iniciais eram uma das formas mais covardes de permanencia. Permitiam que uma pessoa estivesse presente sem se oferecer inteira.
Surah copiou o codigo da operacao.
Dov pousou a mao sobre a mesa, nao sobre ela.
“Surah.”
“Eu vou pedir o microfilme.”
“Isso e razoavel.”
“E vou bloquear o encerramento automatico.”
“Isso e menos razoavel.”
“Se eu nao bloquear, o sistema fecha hoje.”
“Se voce bloquear, alguem vai perguntar por que uma tradutora terceirizada esta reabrindo Nareth.”
“Eu sou analista contratada neste lote.”
“Contratada para consistencia, nao para ressuscitar parente alheio.”
Surah se levantou.
Nao era alta, mas havia nela uma forma de ficar de pe que costumava fazer funcionarios sentados lembrarem de alguma culpa. Ela odiava esse efeito e usava quando precisava.
“Nao estou ressuscitando ninguem. Estou impedindo que o sistema enterre de novo.”
Dov fechou os olhos por um instante.
“Frase bonita. Frase perigosa.”
“As duas coisas podem ser verdade.”
Ela foi ate o armario de requisicoes manuais. O Arquivo ainda mantinha formularios em papel para contingencia, auditoria e supersticao. A gaveta emperrava no fim. Surah puxou com forca demais e ouviu as pastas baterem como uma pequena queda.
Pegou um formulario amarelo.
REQUISICAO DE SUPORTE FISICO / EXCECAO DE FLUXO
Campo 1: Codigo do lote.
Campo 2: Documento solicitado.
Campo 3: Justificativa.
Campo 4: Risco de preservacao.
Campo 5: Autorizacao.
Tambem nao havia campo.
Ela escreveu mesmo assim.
LOTE: 88-RIO-7 / RBS-044
DOCUMENTO: MICROFILME MANIFESTO ORIGINAL NA-88 + ANEXOS CONSULARES
JUSTIFICATIVA: DIVERGENCIA ENTRE NOME, NACIONALIDADE, BENEFICIARIO E VINCULO VIVO RESTRITO.
RISCO: ENCERRAMENTO AUTOMATICO INDEVIDO.
No campo Autorizacao, Dov deveria assinar.
Ele olhou para a caneta como se ela fosse arma sem registro.
“Voce percebe”, disse ele, “que isso pode nao ser erro?”
“Sim.”
“E se nao for erro, alguem escolheu.”
“Sim.”
“E se alguem escolheu, alguem defendeu a escolha.”
“Dov.”
“E se alguem defendeu a escolha, Surah, talvez essa pessoa ainda trabalhe em algum lugar que atende telefone.”
Ela segurou o formulario com as duas maos.
Na tela, o sistema piscou um aviso.
ATENCAO: REGISTRO RBS-044 SERA CONSOLIDADO EM 04:12:33
PARA EVITAR CONSOLIDACAO, SELECIONE CATEGORIA RECONHECIDA.
Categoria reconhecida.
Surah quase sorriu. Nao por humor. Por reconhecimento.
O sistema nao pedia verdade. Pedia uma categoria que pudesse digerir.
“Assina”, disse ela.
Dov olhou para o relogio da parede. Depois para a pasta. Depois para ela.
“Eu devia ter me aposentado quando ainda odiava menos os vivos.”
Assinou.
Surah voltou ao computador. Havia um modo de suspender consolidacao por suporte fisico requisitado, mas exigia selecionar justificativa.
JUSTIFICATIVA:
ERRO DE DIGITALIZACAO
PERDA DE LEGIBILIDADE
AUDITORIA PROGRAMADA
ORDEM SUPERIOR
Nenhuma servia.
Ela selecionou PERDA DE LEGIBILIDADE.
Nao era mentira completa. A legibilidade perdida, naquele caso, era moral.
O sistema aceitou.
REGISTRO RBS-044 SUSPENSO POR 72 HORAS.
Dov fez um som baixo, entre alivio e censura.
“Voce acabou de mentir para impedir uma mentira.”
Surah salvou o comprovante em PDF e imprimiu duas copias.
“Nao”, disse. “Eu usei o unico campo que me deixaram.”
A impressora cuspiu a primeira folha com violencia. A segunda travou pela metade. Dov foi ate ela e puxou o papel devagar, como quem tira espinho de bicho arisco.
Surah escreveu no canto da copia:
NAO CORRIGIR AUTOMATICAMENTE. VERIFICAR M.B.S. ANTES DE QUALQUER RETIFICACAO NOMINAL.
Depois parou.
Riscou “VERIFICAR M.B.S.”
Escreveu:
VERIFICAR VINCULO VIVO SEM EXPOR IDENTIDADE.
Era pior para a investigacao. Melhor para a pessoa.
Ela ainda nao sabia o nome de M.B.S. Nao sabia se era filho, neto, sobrinho, erro, fraude, protegido, testemunha. Nao sabia que aquela sigla atravessaria Puerto Vardos, Casa Iskar, Ishai, Matvei e um formulario que ainda nao existia para ela.
Naquela manha, sabia apenas o suficiente para nao fechar.
O telefone interno tocou.
Dov e Surah olharam para o aparelho ao mesmo tempo.
Ninguem ligava para a sala de triagem antes das oito e meia, a nao ser a recepcao, a direcao ou alguem com pressa de impedir uma coisa pequena.
Dov atendeu.
Ouviu.
Nao disse “bom dia”. Isso foi o primeiro sinal.
Disse:
“Ela esta.”
Surah sentiu o predio inteiro ficar mais atento.
Dov cobriu o fone com a mao.
“Diretoria.”
“Sobre o que?”
Ele olhou para a tela suspensa, para a pasta RBS-044, para a assinatura fresca no formulario amarelo.
“Sobre Nareth.”
Surah pegou a copia impressa antes que Dov pudesse sugerir prudencia.
“Passa.”
Dov nao passou de imediato.
“Voce nao sabe quem esta do outro lado.”
“Ainda nao.”
Ele entregou o fone.
A voz masculina veio limpa demais, com uma cortesia que parecia revisada.
“Senhora Winder?”
“Sim.”
“Meu nome e Matvei Orvek. Creio que a senhora acaba de abrir uma incidencia sobre um registro encerrado.”
Surah olhou para as iniciais no historico.
M.O.
Na tela, sob a suspensao de setenta e duas horas, o sistema ainda mostrava a categoria escolhida.
PERDA DE LEGIBILIDADE.
Ela segurou o fone com mais forca do que precisava.
“Nao”, disse. “Eu acabei de encontrar uma.”