‹ Línea MadreCapítulo 1 de 1

I. M. Cross

Curva 5

Na terceira volta eu já sabia onde ia perder a corrida. E não era na curva que todo mundo achava que importava.

A curva que todo mundo achava que importava era a 4. Uma direita fechada no fim da reta, daquelas que fazem o estômago subir se você freia tarde. Era a curva bonita — a que rendia foto, susto e a sensação de coragem. Os outros atacavam a 4 como se ela fosse o problema: seguravam o acelerador até o último instante, jogavam o kart para dentro, raspavam a zebra na saída e voltavam para a reta convencidos de que tinham arrancado alguma coisa do traçado.

Não tinham.

A 4 mentia bonito para eles.

O kart saía quente, escorregando de leve, e a 5 vinha logo depois — uma esquerda longa, paciente, que durava mais do que parecia vista do muro. Quem chegava nela depois de atacar demais a 4 entrava com o traseiro solto e o pneu já reclamando. Perdia tração no meio, precisava corrigir o volante e chegava devagar à reta de trás.

Três décimos. Talvez quatro. Por volta.

Numa corrida curta, isso era a corrida inteira.

Eu não sabia explicar como conseguia ver aquilo antes de conseguir fazer. Talvez porque não tivesse equipamento para competir na coragem.

O kart não era meu. Era alugado, o número 11, com o banco gasto por gente maior do que eu, o volante torto alguns graus para a esquerda e um pedal de freio que voltava sem pressa. Eu precisava firmar o joelho contra a lateral para não escorregar no banco. O protetor de costelas era emprestado e tinha uma fivela quebrada que alguém havia prendido com fita.

Num kart assim, você não ganhava na entrada. Ganhava descobrindo onde a pista ia cobrar depois.

E o lugar era a 5.

Na volta seguinte, fiz o que parecia errado.

Freei antes na 4. Mais cedo do que meu corpo queria, mais cedo do que os outros, com aquela sensação horrível de estar entregando uma curva de graça. Entrei devagar. Perdi a entrada de propósito. Soltei a vontade de atacar, que é uma das coisas mais difíceis de fazer quando você tem dezesseis anos, um kart que não é seu e gente olhando do outro lado da grade.

Por um instante, funcionou.

Na saída da 4, o número 11 ficou estável onde os outros estavam soltos. Não precisei corrigir tanto. O pneu não fez aquele ruído curto de borracha sendo arrastada, e cheguei à 5 com alguma coisa sobrando — não muito, mas o suficiente para sentir o traseiro firme onde os outros patinavam.

Por dois ou três segundos, o kart respondeu a uma coisa que eu tinha sentido antes de saber dizer.

Foi a única sequência que acertei o fim de semana inteiro.

Saber onde a pista cobra não é o mesmo que saber pagar.

Nas outras voltas, freei tarde demais por medo de parecer covarde ou cedo demais por medo de bater. Errei a referência tantas vezes que parei de contar. Às vezes entrava bem na 4 e estragava a 5 tentando repetir o que tinha dado certo. Em outras, pensava tanto no que deveria fazer que chegava à curva depois do meu próprio corpo.

Tecnicamente, eu tinha uma leitura.

Na prática, minha mão travava. Meu olhar encurtava na hora errada. Eu tentava narrar a volta dentro da cabeça — freia, solta, vira, espera — e o kart, que não escuta narração, seguia fazendo o que minhas mãos mandavam.

Kart sente tudo. É a coisa mais honesta que já me deixaram tocar.

Terminei em sétimo.

De onze.

O menino que ganhou atacou a 4 em todas as voltas e xingou o próprio kart na 5 em todas as voltas. Ainda assim foi mais rápido do que eu, porque ele sabia fazer muitas coisas que eu só sabia enxergar.

Naquela tarde, aprendi também que ninguém se interessa muito por um sétimo lugar.

O primeiro colocado teve foto. O segundo reclamou do motor. O terceiro disse que, com mais duas voltas, teria vencido. Eu me sentei no meio-fio atrás dos boxes com o macacão emprestado aberto até a cintura e uma dor começando nas costelas, onde o banco largo demais tinha me batido a corrida inteira.

O número 11 ficou parado perto da grade, desligado, parecendo mais leve do que tinha sido nas minhas mãos.

O dono da pista passou carregando duas garrafas de água.

— Se divertiu?

— Sim.

Ele assentiu como se essa fosse a única resposta possível e seguiu andando.

Não era mentira. Só era uma resposta pequena demais.

Eu não tinha me divertido exatamente. Tinha acontecido algo pior: durante alguns segundos, o mundo tinha ficado legível. Depois voltara a ser pesado, caro e mais rápido do que eu.

O menino que ganhou estava perto do pódio improvisado com o pai. Os dois olhavam para o celular, escolhendo uma foto. O pai segurava o capacete do filho como se também tivesse participado da corrida.

Meu capacete era alugado. O acolchoado ficava frouxo perto da nuca e tinha um cheiro antigo de suor que não era meu.

Olhei para os dois e pensei que talvez todo esporte começasse assim: alguém tinha equipamento, alguém tinha tempo, alguém tinha um pai ao lado da pista.

Eu tinha a curva 5.

Naquele momento, não parecia suficiente.

Fiquei até tarde porque o ônibus demorava e porque não queria ir embora antes de ter certeza de que o que eu sentira tinha sido real.

A pista foi se esvaziando aos poucos. Primeiro desligaram o letreiro da lanchonete. Depois empilharam os cones perto da oficina. Um homem passou recolhendo pedaços de borracha e abraçadeiras do chão. O cachorro que dormia perto dos boxes acordou, atravessou o estacionamento e ficou cheirando um pneu velho.

Quando quase ninguém mais olhava, caminhei até a grade da curva 4.

Vista de fora, ela parecia mesmo a curva mais importante. A reta terminava ali. A arquibancada pequena estava virada para ela. As marcas de borracha eram mais escuras naquele ponto, dramáticas, como se a pista assinasse embaixo da coragem dos outros.

A 5 parecia um resto. Uma curva que acontecia depois que a foto já tinha sido tirada.

Abri o celular e tentei reconstruir minhas voltas.

Não tinha telemetria. Tinha os tempos gerais, uma bateria em doze por cento e uma memória que já começava a melhorar os meus erros.

Anotei:

Volta 3: entrada normal na 4, correção no meio da 5.
Volta 4: freio antes, saída melhor.
Volta 5: tentei repetir, freei cedo demais.
Volta 6: ataquei por vergonha, perdi a 5.
Volta 7: tráfego.
Volta 8: mão travou.

Fiquei olhando para a quarta volta.

Não era análise. Era uma tentativa de provar para mim mesma que o que tinha sentido não era desculpa.

O ônibus chegou com os vidros embaçados e bancos de plástico rachado. Sentei perto da janela, ainda com o cabelo úmido de suor, e vi as luzes do kartódromo diminuírem atrás de mim.

No reflexo do vidro, meu rosto parecia mais velho do que dezesseis anos e menos pronto do que eu queria.

Meu pai não tinha ido à corrida. Ele quase nunca ia.

Liguei antes de chegar em casa. Ouvi metal batendo do outro lado, uma gaveta fechada com força e a voz de alguém perguntando por uma chave. Ele trabalhava numa oficina pequena perto da estrada, em horários que pareciam não pertencer a dia nenhum.

— Terminou?

— Faz horas.

Ele perguntou onde eu estava, a que horas chegaria e se havia gente no ônibus. Respondi tudo sem paciência, olhando o reflexo escuro da janela.

— Como foi? — perguntou.

— Sétimo. De onze.

— O kart era bom?

Olhei para as minhas mãos. Ainda havia uma mancha escura na base dos dedos.

— Não.

— Freio?

— Voltava devagar.

— E você correu assim?

— Todo mundo corre com o que tem.

— Todo mundo faz muita coisa idiota.

Alguém o chamou de novo.

— Preciso ir. Manda mensagem quando descer.

— Pai.

— O quê?

Quase contei sobre a 5. Quase expliquei que tinha entendido uma coisa que ninguém havia me ensinado, que por dois segundos o kart fizera exatamente o que eu esperava. Mas a história pareceu pequena do lado de fora da minha cabeça.

— Nada.

— Come quando chegar.

Ele desligou.

As luzes da cidade começaram a substituir as da pista no vidro do ônibus.

Foi ali que decidi que, se não podia ter quilômetro, ia colecionar padrões.