Amadeus C. Winterfold
O Quarto Rosa e a Folha que Não Tinha Caído
O Quarto Rosa ficava dentro da Casa da Árvore, e a Casa da Árvore ficava dentro do Grande Jardim.
Isso era simples de entender quando se estava lá.
De fora, talvez parecesse impossível. De dentro, fazia sentido: algumas casas crescem para cima, outras para dentro. Aquela fazia as duas coisas.
No Quarto Rosa havia uma cama macia, uma janela redonda, uma caixa de lápis, folhas secas guardadas como tesouros e um mapa preso na parede. O mapa mostrava a Casa da Árvore, um pedaço do Grande Jardim, três cavalos num campo, dois cachorros perto de uma fonte, um gato desenhado em cima do telhado e vários coelhos que pareciam ter combinado de aparecer só quando ninguém contava.
A Exploradora gostava do mapa porque ele mudava.
Não mudava toda hora. Se mudasse toda hora, ninguém conseguiria confiar nele. Mas às vezes, quando uma pergunta boa aparecia, o mapa lembrava de um lugar novo.
Naquela manhã, antes mesmo de calçar os sapatos, ela percebeu que o mapa estava diferente.
— Tem alguma coisa — disse.
O Guardião das Chaves estava perto da janela, tentando descobrir se o dia queria sol ou chuva.
— Coisa boa ou coisa bagunçada?
— Não sei ainda.
Essa era uma resposta importante. O Jardim gostava quando ninguém fingia saber antes de olhar.
A Exploradora subiu na ponta dos pés. No canto de baixo do mapa, perto do desenho da Casa da Árvore, havia uma folha que não tinha estado ali ontem.
Ela era pequena, mas não era comum. Uma ponta era verde, a outra parecia amarela, e no meio havia um risco rosa tão fino que quase se escondia.
— Uma folha — disse o Guardião.
A folha perdeu um pouco da cor.
A Exploradora olhou para ele.
— Você falou rápido demais.
O Guardião das Chaves piscou.
— Eu só disse que era uma folha.
— Mas talvez ela ainda não soubesse.
O gato, que estava dormindo com metade do corpo dentro de uma almofada e metade fora, abriu um olho. Era o tipo de olho que não ajudava, mas também não atrapalhava.
A Exploradora encostou o dedo no mapa. A folha estremeceu.
— Ela mexeu.
O Guardião chegou mais perto, mas dessa vez guardou a resposta dentro da boca.
Os dois olharam.
O risco rosa no meio da folha começou a se mover. Não era risco. Era caminho. Um caminho pequeno, enrolado, que entrava na folha como se a folha fosse maior por dentro.
Lá fora, o Grande Jardim ficou muito quieto.
O tipo de quieto que acontece quando alguma coisa está começando.
A Exploradora sorriu.
— Acho que a folha quer mostrar onde nasceu.
O gato fechou o olho.
A cauda dele apontou para a porta.
E, no mapa, a Casa da Árvore desenhada ganhou uma escadinha que ninguém tinha desenhado.
FIM DO CAPÍTULO 1 v0.1