‹ El ArqueroCapítulo 1 de 2

Pendente

A Defesa

Uma defesa também pode ser uma pergunta.

O estádio não fazia barulho. Não para Damián Rossi.

Para os outros, talvez fosse barulho: cento e tantas mil pessoas comprimidas numa única garganta, bandeiras batendo contra o ar quente, câmeras suspensas, cabos, refletores, apitos que ninguém distinguia, um país inteiro tentando entrar pela mesma fresta. Para ele, era pressão. Uma coisa física, sem idioma. Entrava pelos ossos do rosto, ocupava o vão atrás dos dentes, descia para o peito e ficava ali, empurrando.

Damián Nicolás Rossi Valdés estava de pé sobre a linha.

Não pulava. Não gritava. Não abria os braços para parecer maior do que era. Havia goleiros que cresciam na pose. Rossi diminuía. Tirava do corpo tudo que não servia. A mão esquerda tocou a trave, uma vez. A direita ajustou a luva no punho. O polegar procurou a costura interna, onde o couro fazia uma pequena dobra desde o aquecimento. Aquilo tinha começado a incomodar no primeiro tempo da prorrogação, mas ele não mandara trocar. Uma luva conhecida era melhor que uma luva perfeita.

O placar estava empatado.

Ele não olhou.

O placar sempre mentia um pouco. Dizia o que tinha acontecido, não o que ainda podia acontecer. Um goleiro não vivia no placar. Vivia no segundo anterior. No peso do atacante sobre o calcanhar. Na pressa de quem finge calma. Na distância entre a bola e o pé de apoio. Na respiração de um homem que, diante do mundo, descobre que tem um corpo.

O árbitro colocou o apito na boca.

Rossi não olhou para ele.

Do outro lado, o camisa nove ajeitava a bola na marca. Era destro. Forte. Tinha feito gols suficientes para que todo mundo o chamasse de inevitável. Durante a semana, a imprensa o repetira como se repetia uma previsão de chuva. Ele finalizava alto. Ele finalizava cruzado. Ele esperava o goleiro cair. Ele não perdoava. Ele decidia. Cada frase tentava transformar o futuro em coisa já ocorrida.

Rossi escutara tudo sem escutar.

O atacante deu dois passos para trás, depois um para o lado. Não era a distância comum de quem queria bater colocado. Também não era a distância larga de quem buscava força. Meio termo. O tipo de meio termo que existia para esconder uma decisão tomada cedo demais.

Damián respirou pelo nariz.

Não pensou em glória. Não pensou na infância. Não pensou no país. Não pensou no pai, nem na mãe, nem na rua, nem no primeiro campo, nem nas vezes em que voltara para casa com as mãos inchadas e o casaco cheirando a barro frio. Essas coisas pertenciam aos outros minutos da vida. Ali, qualquer lembrança longa era um luxo. A memória, se entrasse, precisava vir reduzida a gesto.

A mão esquerda abriu e fechou.

Só isso.

O árbitro apitou.

O camisa nove começou a corrida.

Primeiro passo curto. Segundo mais comprido. O tronco ligeiramente adiantado, como se a bola já estivesse atrasada. Rossi ficou parado. A torcida atrás dele desapareceu num branco contínuo. Não silêncio: branco. A perna direita do atacante armou o chute, mas o ombro esquerdo entregou um atraso mínimo. Um homem podia treinar o pé; o ombro mentia pior.

Rossi não escolheu um canto.

Ele esperou o canto escolher.

O pé de apoio fincou na grama. O tornozelo fechou. O quadril prometeu alto.

A bola saiu limpa.

Durante um instante pequeno demais para caber numa palavra, ela pareceu perfeita. Subiu com força, cortando o ar na direção da gaveta direita de Rossi. Era o chute que os treinadores chamavam de indefensável antes de um goleiro defender. Vinha com violência, vinha com rotação suficiente, vinha longe do corpo.

Mas veio meia mão abaixo do ponto impossível.

Meia mão.

Não era erro. Não no sentido que a arquibancada entenderia. Era menos que um erro e mais que um acaso. Um detalhe de ofício. A diferença entre uma bola que entra e uma bola que fica existindo na palma de alguém.

Rossi saltou.

O salto não começou nas pernas. Começou no estômago. Uma contração funda, animal, antiga, antes da técnica. O corpo inteiro se dobrou para a direita. O braço esquerdo cruzou o ar primeiro, inútil por um décimo, só equilíbrio. A mão direita subiu aberta, dedos separados, punho duro. A bola cresceu. Por um instante, não havia estádio, nem final, nem país, nem camisa. Havia uma esfera branca vindo encontrar uma mão.

Ele tocou com a ponta dos três dedos.

Não defendeu ainda.

O primeiro toque só desviou a morte.

A bola mudou um nada de direção, o suficiente para continuar viva, o suficiente para não obedecer ao chute. Bateu na parte inferior da trave, desceu contra o chão, quicou quase sobre a linha e voltou para dentro da área. O atacante seguia correndo. Um zagueiro também. Rossi caiu com o ombro no gramado, o mundo virou de lado, e mesmo de lado ele viu a bola. Não inteira. Um pedaço branco entre pernas, chuteiras, sombra.

A segunda defesa foi feia.

Não teria fotografia boa.

Rossi se levantou sem levantar. Jogou o corpo para a bola como quem fecha uma porta com o próprio peito. O camisa nove tentou completar. A canela de Rossi chegou antes da chuteira dele. A bola explodiu para fora, raspando na perna de outro jogador, e saiu pela linha lateral.

Só então o estádio voltou.

Veio de uma vez.

O barulho caiu sobre ele como água de uma represa. Rossi estava sentado na grama, o braço direito estendido, a luva aberta, os dedos ardendo. Por dois segundos não entendeu se o árbitro marcara alguma coisa. Olhou para a linha. Olhou para o bandeira. Olhou para o juiz.

Nada.

Lateral.

A bola não entrara.

O camisa nove levou as duas mãos à cabeça. Não como quem protestava. Como quem confirmava para si mesmo que o corpo continuava ali. Um dos zagueiros de Rossi gritou alguma coisa e bateu no peito dele. Outro o puxou pelo colarinho. Alguém beijou a lateral da sua cabeça. Uma unha arranhou sua nuca. Ele não respondeu.

A mão direita continuava aberta.

Era nela que o lance ainda acontecia.

O jogo recomeçou antes que ele terminasse de entender. Não havia tempo para ser herói dentro de campo. Herói era coisa que os outros fabricavam quando a bola parava. Rossi levantou, bateu a chuteira esquerda no gramado para soltar um pedaço de terra, gritou para a linha subir e apontou com dois dedos para o volante fechar o meio. A voz saiu rouca. Ele nem sabia que tinha gritado antes.

A final seguiu.

Foram poucos minutos, mas os minutos depois de uma defesa grande não pertencem ao relógio. Eles ficam soltos. Cada cruzamento parece uma repetição maldosa. Cada recuo parece curto. Cada bola no alto vem carregada de destino por gente demais. Rossi defendeu uma cabeçada fraca no centro do gol. Saiu de soco numa cobrança lateral. Prendeu uma bola fácil no peito e ficou no chão um segundo a mais, não por cera, mas porque o corpo pediu. O árbitro mandou levantar. Ele levantou.

O apito final chegou sem solenidade.

Três sons secos.

O mundo acabou e começou ao mesmo tempo.

Rossi viu primeiro os jogadores do outro time caindo. Depois viu os seus correndo. Um deles tirou a camisa antes de chegar nele. Outro escorregou de joelhos e o abraçou pela cintura. O capitão vinha chorando com a boca aberta, feio, feliz, sem idade. Rossi tentou dar dois passos e não conseguiu. Havia corpos demais. Um braço em seu pescoço. Uma testa contra seu ombro. Alguém gritava seu nome dentro do ouvido.

— Damián! Damián! Damián!

Ele não sabia de quem era a voz.

Talvez fossem todos.

Na arquibancada, o azul e o branco se mexiam como se o estádio tivesse virado mar. Bandeiras cobriam rostos. Pessoas se abraçavam sem se conhecer. Um velho fazia o sinal da cruz repetidas vezes. Uma criança chorava com as duas mãos espalmadas contra o vidro de proteção. As câmeras encontraram Rossi de joelhos, depois em pé, depois novamente de joelhos porque alguém o derrubou no abraço. Ele tentou sorrir e o sorriso não encontrou caminho. O rosto parecia atrasado em relação ao corpo.

Um auxiliar colocou uma bandeira nos seus ombros.

A bandeira era pesada de suor alheio.

Rossi segurou as pontas, mas não a ergueu. Caminhou em direção à pequena multidão que se formava perto do banco. A comissão abraçava jogadores, jogadores procuravam familiares, seguranças tentavam montar uma ordem impossível. Ele viu sua mãe antes de vê-la. Não pelo rosto; pelo modo como ela estava parada. Todos pulavam. Ela não. Tinha as mãos no peito, uma sobre a outra, como se segurasse algo que podia cair.

Quando Rossi chegou perto da grade, ela disse alguma coisa.

O som não atravessou.

Ele também disse.

Nada atravessou.

Então ela encostou a mão no vidro. Ele encostou a luva do outro lado. A luva suja, úmida, enorme. A mão dela parecia pequena atrás do plástico transparente. Houve um segundo em que a final inteira coube ali: uma mãe sem voz, um filho sem frase, uma barreira entre os dois, e o mundo gritando como se entendesse.

O pai não estava ao lado dela. Estava dois degraus atrás, com o rosto duro e molhado, tentando parecer homem diante de uma felicidade que não cabia na postura. Rossi viu quando ele ergueu o polegar. Um gesto curto. Quase tímido. Mais difícil que chorar.

Depois o protocolo tomou tudo.

Chamaram os jogadores para a cerimônia. Fizeram fila. Entregaram camisetas comemorativas. Puseram bonés que ninguém queria usar e que todos usaram. As medalhas vieram frias, uma a uma, penduradas em pescoços quentes. Quando a de Rossi tocou seu peito, ele sentiu o metal bater contra o osso e teve vontade de rir. Uma medalha era pequena demais para tanto barulho.

O locutor anunciou seu nome.

— Damián Rossi.

O estádio respondeu antes dele.

Rossi subiu ao palco montado no meio do campo. Não lembrava dos degraus. Lembrava da mão direita. Os dedos começavam a inchar dentro da luva. Tinha dor no indicador, talvez no médio. Nada grave. Dor de goleiro. Dor que o corpo aceitava como parte do salário invisível da posição. Ele fechou a mão devagar. A articulação reclamou.

O capitão ergueu a taça.

A luz explodiu.

Papel picado, fogo frio, música, braços, boca, metal, suor, gente. Rossi foi empurrado para o centro da foto. Alguém enfiou a taça em suas mãos por um segundo. Ela era mais leve do que parecia e mais difícil de segurar. Ele a levantou sem saber para onde olhar. As câmeras pediam seu rosto. A multidão pedia um gesto. O país, em algum lugar além daquele estádio, pedia que aquele instante durasse.

Ele fez o que se faz quando não se sabe o que fazer com a alegria: levantou os braços.

O estádio aceitou.

Gritaram seu nome outra vez. Não como nome de homem. Como refrão. Damián Rossi deixou de ser apenas alguém ali. Virou uma forma que a multidão reconhecia de longe: o goleiro, a defesa, a mão, o salto, o impossível. Havia uma violência secreta nisso. Uma beleza também. O jogador entrega um ato; o público devolve uma estátua.

No vestiário, ninguém era estátua.

Havia água no chão. Champanhe barato e caro misturados num mesmo cheiro doce. Gritos nas duchas. Música saída de uma caixa portátil. Jogadores ligando para esposas, filhos, mães, irmãos, amantes, amigos que não atendiam porque também estavam chorando diante de alguma televisão. Um zagueiro dormia sentado, com a medalha no pescoço e as chuteiras ainda amarradas. Outro vomitava no banheiro de emoção, esforço ou bebida. Ninguém perguntava.

Rossi sentou diante do seu armário.

Demorou a tirar as luvas.

Primeiro a esquerda. Saiu fácil. Depois a direita. Ele puxou pelos dedos, com cuidado, porque a mão tinha virado uma coisa separada. Quando a luva finalmente cedeu, a pele apareceu marcada, enrugada, vermelha nas juntas. O indicador estava levemente roxo. O médio tinha uma linha branca onde a bola o dobrara para trás. Ele abriu e fechou a mão. A dor respondeu.

Um médico passou.

— Deixa eu ver.

— Depois.

— Damián.

— Depois.

O médico olhou para ele, olhou para a mão e decidiu que discutir com um campeão recém-nascido era uma forma inútil de medicina. Seguiu adiante.

Rossi apoiou a luva direita no banco. Por dentro, ela guardava o formato da sua mão. Por fora, carregava a grama da final. Ele passou o polegar nu sobre a área dos dedos, onde a bola havia tocado. Não havia marca visível. Era absurdo esperar uma. Mesmo assim procurou.

Um atacante reserva se aproximou com o celular na mão.

— Você viu?

— O quê?

— A defesa, animal. Já está em todo lugar.

Rossi olhou a tela.

A imagem era ruim, gravada da televisão por outro telefone, tremida, com alguém berrando no fundo. Ainda assim dava para ver. O camisa nove correndo. O chute. Rossi voando. A bola batendo na trave. O corpo dele fechando o rebote. Depois a arquibancada desaparecia porque quem filmava largava o aparelho para comemorar.

— De novo — pediu o reserva.

O vídeo voltou.

O camisa nove correu outra vez. O chute outra vez. Rossi outra vez.

Na tela pequena, tudo parecia mais rápido e mais simples. O corpo sabia mais do que a imagem mostrava. A câmera transformava o lance em milagre porque não tinha como registrar o trabalho inteiro: os jogos vistos, as repetições, as noites de estudo, a posição do ombro, o pé de apoio, a leitura que não era adivinhação.

Para a câmera, ele voara.

Rossi devolveu o celular. Flexionou os dedos; o indicador respondeu com uma fisgada.

— Puta que pariu — disse o reserva, rindo. — Você foi buscar fora do mundo.

Rossi olhou para a própria mão.

— Não estava fora.

O outro riu como se aquilo fosse modéstia.

Rossi deixou que parecesse.

Alguém começou a bater na porta do armário com ritmo de música. Outros acompanharam. Em segundos, o vestiário inteiro cantava. Puxaram Rossi para o centro. Derramaram bebida em sua cabeça. Ele tentou escapar e não quis escapar. Cantou sem saber a letra inteira. Abraçou homens de quem se lembraria para sempre e outros de quem, em pouco tempo, esqueceria detalhes pequenos: um corte de cabelo, uma tatuagem, uma pulseira. Naquele momento todos eram indispensáveis.

Mais tarde, quando a euforia diminuiu o suficiente para que cada um voltasse a caber no próprio corpo, Rossi tomou banho.

A água quente bateu na nuca e levou pedaços de grama que ele não tinha percebido. Lavou o rosto com as duas mãos e sentiu a direita reclamar de novo. Olhou para os dedos. Nada ali parecia capaz de segurar um país. Eram dedos comuns, com unhas mal cortadas e pele machucada. O mito já estava correndo lá fora, mas a mão continuava sendo mão.

Vestiu a roupa limpa. Calça escura, camisa branca, agasalho da delegação. A medalha ficou dentro da mochila. Não por desprezo. Por cansaço. Havia objetos que precisavam esperar antes de se tornarem verdade.

No corredor, jornalistas gritavam perguntas atrás de uma barreira metálica.

— Rossi! Rossi! Aqui!

— O que você sentiu na defesa?

— Você sabia que ele ia bater ali?

— Foi a maior defesa da história?

— Você treinou esse lance?

— O que passa pela cabeça de um goleiro naquele momento?

Rossi parou porque mandaram parar. Um assessor aproximou o microfone oficial. As câmeras acenderam pequenas luzes vermelhas. O mundo queria uma frase que coubesse na noite.

Ele procurou alguma coisa honesta.

Não era fácil. A honestidade, depois de uma final, parecia pequena demais ou vaidosa demais. Se dissesse que tinha acreditado, mentia. Se dissesse que foi instinto, diminuía o trabalho. Se dissesse que estudara o atacante, parecia cálculo frio diante de algo que todos queriam chamar de milagre.

Então falou apenas:

— Eu vi tarde. Mas cheguei.

Os jornalistas gostaram. Não porque entenderam, mas porque era curto. Servia para título.

— Você viu tarde? — insistiu uma repórter de crachá torto.

Rossi olhou para ela.

— Vi.

Ela esperou mais alguma coisa.

Rossi flexionou a mão dentro do bolso do agasalho, mas não completou a frase. A resposta que servia para a televisão não era a mesma que servia para a mão.

Os outros já gritavam novas perguntas.

— E agora?

Rossi olhou para o corredor atrás das câmeras. Um segurança segurava a porta que levava ao ônibus. Do outro lado, havia madrugada, aeroporto, festa, retorno, praça cheia, varanda oficial, discursos, gente pendurada em postes, crianças usando sua camisa, velhos dizendo que nunca tinham visto nada igual. Tudo isso já se organizava sem ele.

— Agora eu quero dormir — disse.

Riram.

Ele passou.

No ônibus, sentou junto à janela. Alguns jogadores continuavam cantando. Outros já falavam ao telefone em voz baixa, como se a felicidade exigisse segredo. Rossi apoiou a testa no vidro frio. Lá fora, luzes do estádio corriam devagar. Viu torcedores encostados nas grades, alguns ainda chorando, outros filmando qualquer sombra que saísse do portão. Um menino levantou uma placa com seu nome escrito torto. O ônibus andou antes que ele conseguisse ler a frase inteira.

A mão direita repousava sobre a coxa.

Aberta.

Ele tentou fechá-la outra vez. Não conseguiu completamente. Sorriu sozinho, mínimo. A dor tinha alguma coisa de prova. Enquanto doesse, o lance continuava sendo dele. Não da televisão, não dos narradores, não da praça, não dos arquivos que começariam a repetir a defesa em câmera lenta até ela deixar de parecer humana.

Dele.

O telefone vibrou muitas vezes.

Ele não olhou.

A noite inteira queria entrar por uma tela, mas Rossi ficou olhando a própria mão. Na dobra entre o indicador e o médio havia um pouco de terra que o banho não tirara. Ele raspou com a unha da outra mão. A terra saiu em duas partes pequenas, quase pretas.

No banco da frente, o capitão virou para trás.

— Damián.

Rossi ergueu os olhos.

— Você salvou a gente.

Ele podia ter dito que não. Podia ter dito que todos salvaram todos, que o gol no primeiro tempo salvara, que o zagueiro no rebote salvara, que ninguém ganhava sozinho, que futebol era isso e outras frases verdadeiras o bastante para esconder a verdade principal.

Mas estava cansado demais para a elegância.

— Hoje, sim — disse.

O capitão riu.

— Hoje, sim.

E voltou a cantar.

Rossi encostou a cabeça no vidro de novo.

O estádio ficou para trás. A cidade estrangeira apareceu em avenidas largas, viadutos, hotéis acesos, viaturas, motos, gente correndo ao lado do ônibus até perder o fôlego. Dentro dele, alguma coisa permanecia na linha do gol. Não a imagem inteira. Só o instante exato em que a bola encontrou sua mão.

Meia mão abaixo.

Era uma medida pequena demais para a história que começava a nascer daquela noite. Pequena demais para os jornais, para as capas, para os vídeos, para a multidão que gritaria seu nome em praças e cozinhas e bares até o amanhecer. Pequena demais para explicar a diferença entre um país em silêncio e um país em festa.

Mas o corpo de Rossi guardou.

Não como suspeita.

Como os goleiros guardam: no dedo, no ombro, no lado do quadril que bateu primeiro no chão, na respiração cortada antes do salto, na parte da palma que, mesmo sem marca, continuava sentindo o peso da bola.

Quando enfim fechou os olhos, o ônibus inteiro ainda cantava.

Damián Rossi dormiu por alguns minutos com a mão aberta sobre a perna, como se a defesa não tivesse terminado de cair.