‹ DinárquicoCapítulo 1 de 24

W. S. Saldanha

O Campo Era O Último Lugar Simples

O ônibus parou antes do portão do estádio. O segurança conferiu a lista pela janela do motorista, passou o dedo pelos nomes, voltou uma linha, riscou um nome com uma caneta que falhava no papel úmido. Do lado de fora, três garotos correram junto ao vidro escuro. Usavam camisas falsas, azul um pouco claro, número certo nas costas. Um deles ergueu o celular. Amir estava com a mão direita apoiada no vidro, os dedos meio curvados por causa de um formigamento pequeno, desses que não pediam explicação. Quando percebeu a câmera, tirou a mão. Tarde. O menino olhou a tela e abriu um sorriso como se tivesse conseguido algo.

No ônibus, ninguém comentou. O roupeiro recolhia copos plásticos. Um auxiliar avisou que a zona mista seria curta. O assessor lembrou que havia foto com patrocinador depois do jogo: três capitães, camisa limpa, cinco minutos. Amir perguntou se dava para empurrar para outro dia. O assessor disse que não era entrevista. Só foto. Amir assentiu, porque discutir antes de jogo gastava uma energia que não voltava.

No vestiário, o lugar dele estava pronto. Chuteiras no chão, caneleiras dentro das meias, camisa pendurada com o número virado para fora. MONTEIRO ocupava a largura dos ombros. Amir passou o polegar pela costura do M e achou um fio solto na nuca. Pediu tesoura ao roupeiro. O homem cortou sem perguntar. Havia uma utilidade nisso: alguém que resolvia um detalhe pequeno sem transformá-lo em conversa.

O celular vibrou na mochila. Júlia.

comeu?

Amir olhou para a mesa: banana aberta, sachês de mel, fruta cortada em cubos moles, café frio dentro de um copo térmico.

sim.

A mentira era pequena. Encaixava bem no começo da noite.

O técnico falou de pressão no volante esquerdo, bola longa no espaço atrás do lateral, cuidado com segunda bola. Amir amarrou a chuteira direita, depois refez o nó da esquerda. O formigamento voltou no pulso quando puxou o cadarço. Ele abriu e fechou a mão uma vez, discreto, atrás da perna. Obedeceu. Meio atrasada, mas obedeceu. Não havia motivo para dar nome a isso.

Chamaram para o túnel. Amir foi o quarto da fila. Damián ficou atrás dele, mascando chiclete. O goleiro batia as luvas uma na outra, baixo, sempre no mesmo ritmo. O túnel cheirava a borracha, pomada muscular, cabo elétrico quente. Uma câmera passou perto; Amir inclinou o rosto só o bastante para não parecer fuga.

— Hoje tem gol — disse um repórter, sem microfone, como quem pedia favor.

Amir sorriu. No tempo certo.

A entrada no campo não era bonita de perto. Papel picado grudava na grama úmida. A fumaça dos sinalizadores ficava baixa. Perto da linha lateral, alguém havia coberto um buraco com areia. Amir pisou ali de leve para testar a trava. A sola agarrou. O tornozelo acompanhou. Tudo dentro do previsto.

O juiz apitou.

Nos primeiros minutos, Amir tocou pouco na bola. Fechou passe, voltou para buscar espaço, apontou uma diagonal que ninguém viu, reclamou de uma bola atrasada sem levantar os braços. Aos doze, recebeu de costas, prendeu com a sola, sofreu contato no quadril e caiu. Falta. Levantou rápido antes que o zagueiro oferecesse a mão. Havia câmera para todo tropeço.

A cobrança não deu em nada. O pulso direito voltou a formigar quando ele ajeitou a braçadeira. Amir coçou a testa com a mão esquerda e deixou a direita solta ao lado do corpo. O preparador físico, do outro lado, olhou por um segundo. Amir virou de costas para acompanhar a saída de bola.

Aos vinte e oito, o jogo abriu exatamente onde o técnico havia desenhado. O lateral deles subiu mal, Damián desviou de cabeça sem olhar, e Amir arrancou antes de decidir. O zagueiro cortou por dentro. Amir levou a bola para fora, deu mais um toque, viu o goleiro sair. A torcida levantou antes do chute.

O pé direito veio certo. O tronco, não. O corpo deslocou meio palmo, como se alguém tivesse puxado a camisa por dentro. Amir chutou mesmo assim. A bola saiu baixa, cruzada, no canto.

Gol.

Damián chegou primeiro e agarrou a mão direita dele para puxá-lo para a comemoração. A mão não fechou. Escapou mole, sem força. Damián segurou pelo antebraço e puxou de qualquer jeito. Depois vieram os outros: braço no pescoço, camisa puxada, grito no ouvido, cheiro de grama arrancada. Amir bateu no escudo, apontou para a arquibancada, sorriu para a câmera mais próxima.

Na volta para o meio-campo, Damián encostou nele.

— Tua mão.

— Grama soltou.

Damián olhou para o chão, depois para ele.

— Não foi a grama.

Amir ajustou a braçadeira com a esquerda.

— Joga.

Damián não respondeu. O silêncio pesou mais do que se tivesse insistido.

O placar mostrou 1-0 e 29:41. O jogo recomeçou com o estádio ainda cantando seu nome. Amir pediu a bola curta, devolveu de primeira, evitou uma disputa de corpo com o volante deles e abriu para a ponta. Fez tudo certo. Só que agora havia alguém em campo sabendo que algo não tinha sido certo.

Aos trinta e sete, Amir perdeu uma bola simples. O passe veio um pouco atrás, nada grave. Em outro dia, ele protegeria com o braço direito, giraria para dentro, chamaria a falta ou soltaria no lateral. Dessa vez, não quis dar o braço ao zagueiro. Tentou resolver com o pé, rápido. A bola bateu na canela e sobrou limpa. O adversário puxou contra-ataque. O chute passou perto da trave.

O goleiro gritou.

Damián também.

— Era só segurar!

Amir levantou a mão esquerda pedindo desculpa. A direita ficou baixa.

O primeiro tempo acabou com vantagem, mas o vestiário entrou mais apertado do que o placar. O técnico falou sobre baixar a linha, não dar falta perto da área, fazer o relógio trabalhar. Amir sentou, tirou a chuteira direita, colocou de novo. O médico se aproximou com a garrafa.

— A mão.

— Ombro. Caí torto.

— Eu disse mão.

Amir bebeu água.

— Foi nada.

— Abre.

Ele abriu. Os dedos ficaram curvados. O médico pegou o pulso, testou força, pediu resistência. Amir fez força. Pouca.

— Formigamento?

— Frio.

— Está trinta graus.

— Então não é frio.

O médico tirou o celular do bolso e começou a digitar.

— Que é isso?

— Registro.

— Registro de quê?

— Déficit de força na mão direita. Parestesia referida. Queda sem apoio.

— Escreve pancada.

O médico continuou digitando.

— Não escreve meu diagnóstico por mim.

— Também não escreve minha substituição.

— Se piorar, eu tiro você.

Amir levantou. O técnico chamava o time de volta. O médico bloqueou meio passo da saída, não o bastante para fazer cena, o suficiente para deixar claro que não tinha terminado.

— Você fica contra orientação.

— Então registra isso também.

O médico olhou para ele por um segundo. Depois digitou mais uma linha.

Amir voltou para o campo sabendo que havia perdido algo que não aparecia no placar.

No túnel, Damián veio ao lado dele.

— Ele viu?

— Viu o que quis.

— Você vai sair?

— Você vai tocar melhor?

Damián soltou ar pelo nariz. Não era riso. Quando o segundo tempo começou, passou a primeira bola para Amir no pé esquerdo. Fácil. Cautela. Amir devolveu de primeira, irritado com a gentileza.

A partida virou administração. O outro time adiantou os laterais. O nosso goleiro demorou tiro de meta. O zagueiro caiu com cãibra falsa e levantou com cãibra verdadeira. Amir correu menos para frente e mais para fechar linha. O corpo aceitou isso por alguns minutos.

Aos sessenta e dois, veio a jogada que não aceitou. Damián roubou no meio e tocou para Amir com espaço. Havia uma opção segura na esquerda e uma melhor por dentro. Para fazer a melhor, Amir precisava dominar orientado, usar o braço direito para proteger e girar. Ele viu a jogada inteira. Viu também o braço que não queria confiar. Escolheu a esquerda tarde.

O passe saiu fraco.

O volante deles interceptou. Dois toques depois, a bola estava dentro da área. O atacante chutou cruzado. A trave devolveu.

O estádio fez silêncio antes de reclamar.

Amir parou no meio-campo com as mãos na cintura. As duas, dessa vez. A direita ficou ali como uma peça mal encaixada.

Damián atravessou até ele.

— O que foi isso?

— Passe ruim.

— Eu sei que foi passe ruim.

— Então pergunta direito.

Damián ia responder, mas o juiz chamou. O escanteio veio. A defesa tirou. O jogo continuou sem esperar que os dois terminassem.

Aos setenta, o técnico substituiu Damián. Ele saiu contrariado, passou por Amir sem bater na mão. Só disse:

— Ele vai saber.

Amir não perguntou quem. Médico, técnico, Júlia, imprensa. A frase servia para todos.

Os vinte minutos finais foram trabalho de sobrevivência. Amir ficou perto da bandeira, segurou a bola com o corpo, ganhou lateral, aceitou chute no tornozelo. Quando a câmera vinha perto, levantava a cabeça. Quando precisava reclamar, reclamava com o braço esquerdo. O direito ficou econômico.

Aos noventa, anunciaram cinco de acréscimo. O estádio protestou, como se o tempo fosse negociável com barulho. O riso tentou subir. Amir não gastou rosto com ele.

O apito final veio seco.

Vitória. Gol dele. Três pontos.

Um garoto da base pediu a camisa na saída. Amir tirou com a esquerda, prendendo a barra no cotovelo direito para disfarçar a falta de força. Entregou. O menino segurou o tecido suado com as duas mãos.

— Grande jogo.

— Valeu.

— A arrancada foi absurda.

Amir assentiu. Não corrigiu a palavra.

Na zona mista, o assessor cumpriu a promessa de cinco minutos com quase dez. Três perguntas sobre o gol. Duas sobre o campeonato. Uma sobre renovação. Amir respondeu no plural sempre que pôde: o grupo, a equipe, a torcida, o trabalho. O plural era útil porque escondia o corpo dentro de uma multidão.

Uma repórter levantou o celular.

— Amir, está circulando uma foto sua chegando ao estádio. Sua mão parece travada no vidro. Você sentiu alguma coisa antes do jogo?

O assessor entrou no meio.

— Última pergunta foi sobre campeonato.

Tarde. Outros celulares subiram. Amir viu a foto de longe, ampliada numa tela. Vidro escuro, reflexo do ônibus, rosto de garoto fora de foco. E a mão dele perto da janela, dedos curvados, um detalhe pequeno e errado no canto da imagem.

— Ângulo ruim — disse Amir.

— Então não teve incômodo?

— Teve jogo.

Alguns riram. Não muitos.

O assessor encerrou. Um segurança abriu caminho. Amir seguiu pelo corredor sem acelerar. A vontade era andar rápido; por isso andou normal.

O médico esperava perto da porta do vestiário.

— Agora ficou público.

— Uma foto borrada não é público.

— É exatamente público.

Amir passou por ele.

— Amanhã cedo — disse o médico.

Amir não respondeu.

A foto com o patrocinador aconteceu diante do painel de marcas repetidas. Deram a ele camisa limpa e pediram que segurasse a garrafa com o rótulo para frente. Amir pegou com a esquerda. O executivo falou de orgulho, comunidade, futuro. O fotógrafo pediu mais um sorriso. Amir deu. Pediu outro. Amir deu também. O corpo sabia fazer certos gestos sem consultar o resto.

Quando voltou ao vestiário, quase todos já estavam no banho. O chão tinha poças cinzentas, pedaços de fita, uma meia esquecida perto da lixeira. A chuteira direita não quis sair. O nó tinha apertado durante o jogo. Amir tentou puxar com os dedos da mão direita. Nada. Tentou com a esquerda. Soltou pela metade. Terminou usando os dentes.

O celular vibrou.

Júlia.

Não era texto primeiro. Era imagem.

A foto do garoto. Ampliada. A mão no vidro cercada por um círculo vermelho que alguém tinha desenhado antes dela receber.

Depois veio a mensagem:

por que sua mão está assim?

Amir ficou sentado com uma chuteira no pé e a outra solta no chão. A televisão presa no canto mostrava o replay do gol. Na tela, a arrancada parecia limpa. O narrador dizia seu nome como se estivesse falando de uma máquina confiável.

Ele digitou: reflexo do vidro.

Apagou.

Digitou: bati no lance.

Apagou.

Digitou: depois te explico.

Não enviou.

O chuveiro fechou no fundo. Alguém riu de algo que não chegou inteiro. O médico passou pela porta, viu Amir com o celular, não entrou. O gesto pareceu gentileza e punição ao mesmo tempo.

Amir travou a tela sem responder.

Depois do banho, quando o vestiário já esvaziava, voltou ao campo para buscar a faixa que usava no pulso esquerdo. Tinha outras. Disse ao roupeiro que era superstição. O roupeiro aceitou porque superstição dava menos trabalho que verdade.

O estádio estava quase vazio. Parte das luzes tinha sido apagada. A grama parecia menor sem a torcida. Amir encontrou a faixa perto da área técnica, suja de areia. Abaixou devagar e pegou com a esquerda.

Na volta, pisou no lugar onde o corpo havia mudado de regra antes do gol. A trava afundou. O gramado cedeu e empurrou de volta.

Amir parou.

Não havia som suficiente para transformar aquilo em pressentimento. Só máquina limpando arquibancada, rádio de segurança, água correndo em algum cano. Ele moveu o pé. A terra ficou quieta. Pisou outra vez. Nada.

O celular vibrou no bolso.

Amir não olhou.

Saiu pelo túnel com a faixa na mão esquerda. A direita continuou fechada pela metade.