L. V. Serrat
La Fuga Vertical
A toalha da mesa no Café La Biela estava manchada de gordura, e o garçom me olhava com a impaciência típica de quem tem contas a pagar. Ele não via o que eu via. Ninguém via.
Lá fora, a Avenida 9 de Julio rugia. Para os turistas, era apenas trânsito, buzinas e o calor insuportável de fevereiro. Para mim, era um organismo vivo, uma besta de metal e asfalto tentando digerir a cidade.
Mas o chão vibrou. Não foi o metrô. Foi um tremor seco, profundo, que fez minha colher de café tinir contra o pires.
Olhei pela janela. O gigante branco estava acordando. O Obelisco.
Uma fumaça densa e branca começou a vazar da base do monumento, misturando-se ao escapamento dos ônibus. As rachaduras no concreto brilharam com um fogo azulado. Aquilo nunca foi um monumento. Era uma nave. Um foguete de uma era esquecida, cravado no coração de Buenos Aires, cansado da gravidade, pronto para abandonar o caos e levar consigo o ponto de fuga da cidade.
— Ele vai partir — sussurrei. — A cidade vai desabar sem ele.
Abri meu caderno de couro. Eu tinha segundos. Precisava capturar a imagem, ancorá-la no papel antes que ele decolasse.
Mas a cidade não queria ser salva. O esquecimento atacou.
Primeiro, foi o som. Um caminhão de lixo freou na avenida, um guincho metálico tão agudo que trincou minha concentração. A imagem do foguete piscou na minha mente. Por um milésimo de segundo, vi apenas pedra suja. O barulho tentou me convencer de que eu estava louco. “É só trânsito,” minha mente racional mentiu. “Olhe para o celular como todo mundo.”
Balancei a cabeça. Não. Eu sabia o que via.
Levei a pena ao papel, mas a mesa estava molhada. A condensação do copo de água gelada tinha criado uma poça invisível bem onde eu precisava desenhar a base. Se a tinta tocasse ali, viraria um borrão. O desenho morreria afogado.
Maldita umidade. Maldito verão porteño.
O monumento brilhou mais forte. A luz azulada refletia nas janelas dos escritórios, mas ninguém olhava para cima. Só eu. A solidão pesou mais que a caneta.
O garçom passou apressado, esbarrando no meu cotovelo. — ¿Más café, señor? O empurrão fez minha mão deslizar. Um risco torto, preto e feio cortou a página.
Respirei fundo. O cheiro de diesel e café queimado invadiu meu nariz. Era agora ou nunca. Ignorei a água. Ignorei o garçom. Usei o próprio erro — o risco torto do empurrão — e o transformei na fumaça da decolagem. A caneta rasgou a fibra do papel. O traço saiu agressivo, nervoso.
Olhei para a praça. Precisava de uma âncora. E lá estavam eles. Centenas de pombos cinzentos. Mas não comiam milho. Eles se alinharam, estufaram o peito e, num movimento uníssono, deram um passo à frente e dois atrás. Eles não andavam. Eles dançavam.
Eram os Pichones Tangueros. O ritmo deles, um 2x4 melancólico e pesado, criava uma gravidade mágica que segurava o foguete no chão. Enquanto houvesse tango na calçada, o Obelisco não quebraria as correntes.
Desenhei rápido. O bico sujo, o olhar triste da ave, a pose de dançarino. Soprei a tinta. O desenho secou. O tremor parou. O Obelisco apagou o fogo azul. Ele ficaria mais um dia.
Fechei o caderno. Minha mão tremia, suja de nanquim e suor. Paguei o café e saí para o bafo quente da rua. O garçom recolheu a xícara, sem saber que, por um triz, a cidade não tinha voado para o espaço.