‹ O Antígeno AusenteCapítulo 1 de 3

L. V. Serrat

A Palavra Que o Cliente Preferia

O documento tinha chegado na segunda-feira com uma nota do cliente: “Prezada Helena, conforme conversamos, preferimos os termos do glossário anexo para este relatório. Qualquer dúvida, estou à disposição. Att., R.”

Era quarta-feira à noite. Ela ainda não tinha aberto o glossário.

O apartamento em Buenos Aires estava quente para abril. Ela havia ligado o ventilador mas o ruído a incomodava mais do que o calor, então desligou. A janela dava para um paredão de tijolos. Às oito da noite, o paredão era laranja de uma luz que ela nunca tinha conseguido identificar de onde vinha.

O relatório se chamava Compliance Report — Plasma Collection Program — Q4 2024. Vinte e sete páginas. O prazo era quinta-feira às doze.

Ela abriu o glossário.

Era um arquivo de Excel. A aba se chamava Approved_terminology_v3_final. As células estavam protegidas. Ela podia copiar, não alterar. Havia uma coluna chamada Termo Original e uma coluna chamada Termo Aprovado — Uso Obrigatório. No canto direito de uma célula, havia um comentário de alguém: avoid transactional language.

Ela desceu com os olhos até encontrar o que estava procurando.

Termo Original: source plasma donor / paid plasma donor / compensated plasma donor Termo Aprovado: participante do programa de doação de plasma / colaborador voluntário

Ela fechou o Excel. Abriu o documento de tradução. Começou pela página dois.


O programa operava em oito centros de coleta em quatro cidades da zona fronteiriça. O relatório dizia que os centros haviam alcançado, no quarto trimestre de 2024, uma taxa de retenção de doadores de 84%, acima da meta estabelecida no contrato com o parceiro latino-americano.

Taxa de retenção de doadores.

Ela traduziu: taxa de retenção de participantes do programa.

Continuou.

Na página seis havia uma tabela com o perfil demográfico dos doadores. A coluna Frequência média de coleta mostrava: 1,87 sessões por semana.

O número apareceu antes que ela quisesse fazer a conta. Duas vezes por semana. Cinquenta e duas semanas. Cento e quatro. Noventa e sete ainda cabia.

Ela continuou.


Na página onze havia um anexo com cinco perfis de doadores. O relatório chamava de estudos de caso — exemplos de participantes de longa data que ilustravam o perfil típico do programa.

O primeiro perfil dizia:

ID: 7741-MX. Sexo: F. Idade: 34. Tempo no programa: 6 anos e 3 meses. Frequência atual: 2x/semana. Status: ativo. Observação do supervisor de coleta: “Participante exemplar. Pontual. Sem intercorrências. Contribuição consistente para as metas trimestrais do centro.”

Não havia nome. Havia frequência, status, observação do supervisor.

Ela traduziu: contribuição consistente para as metas trimestrais do centro.

Passou para o próximo perfil.


Às dez e meia ela parou para beber água e ficou de pé na cozinha por mais tempo do que precisava.

Voltou para a mesa.

Na página quinze o relatório descrevia o protocolo de saúde dos doadores. Exames a cada seis meses. Aferição de proteínas totais antes de cada coleta. Suspensão temporária em caso de resultado abaixo do mínimo.

Havia uma linha que dizia: “In cases of temporary suspension, donors are encouraged to return to the program once protein levels are restored.”

Ela traduziu: nos casos de suspensão temporária, os participantes são encorajados a retornar ao programa após normalização dos níveis proteicos.

Depois ficou olhando para encorajados a retornar.

Manteve.


Às onze e quarenta e cinco ela chegou na página vinte e dois.

Era a seção de terminologia operacional. O relatório listava os termos internos usados pelos centros e pedia consistência com o glossário aprovado.

Ela foi descendo.

Harvest session: sessão de coleta. Collection target: meta de coleta. Donor retention: retenção de participantes. High-frequency donor: participante de alta frequência. Source plasma: plasma de origem. Compensation package —

Ela parou.

O glossário não tinha esse.

Ela voltou ao Excel. Compensation package não estava na lista.

Podia usar remuneração. Podia usar incentivo financeiro. Podia usar benefício.

Ela digitou remuneração.

A palavra ficou ali, excessiva, correta demais para o documento que estava traduzindo.

Ela apagou.

Abriu um email para o cliente.

“Prezado R., ao traduzir a seção 22 encontrei o termo ‘compensation package’, que não consta no glossário aprovado. Poderia confirmar a preferência para este termo? Aguardo retorno. Att., Helena.”

Eram onze e cinquenta e um. O cliente estava em Houston.

Às onze e cinquenta e sete o email chegou.

“Olá Helena. Pode usar ‘benefício de participação’. Obrigado. R.”

Ela substituiu as quatro ocorrências.


À 0h40 ela enviou o documento.

Fechou o computador. Ficou sentada no escuro antes de perceber que havia ficado sentada no escuro.

Ligou a luz.

Havia uma torneira pingando na cozinha. Ela havia avisado ao síndico em fevereiro.

Ela pensou, sem querer pensar nisso, no ID 7741-MX. Trinta e quatro anos. Seis anos e três meses no programa. Duas vezes por semana.

Seis anos e três meses eram setenta e cinco meses. Mais de trezentas semanas. A duas vezes por semana, mais de seiscentas sessões. Mesmo com faltas. Mesmo com suspensões. Mesmo com qualquer margem de erro: mais de seiscentas.

Ela não sabia como se sentia em relação a esse número. Não sabia se havia um sentimento adequado para esse número.

Sabia que havia traduzido um documento que descrevia mais de seiscentas sessões de plasmaférese como contribuição consistente para as metas trimestrais do centro.

Sabia que seria paga por isso. O pagamento cairia em dois dias úteis.

Ela foi escovar os dentes.


Quando voltou para o quarto havia uma cena que ela ficava imaginando às vezes sem nunca ter chegado perto dela de verdade.

Uma mulher num assento de couro ou plástico. Uma agulha. O sangue separado por centrifugação, o plasma retirado, o restante devolvido. Quarenta minutos a uma hora. Depois um formulário. Depois um benefício de participação. Não: dinheiro. Depois a saída.

Ela não conseguia montar a cena de forma que se sentisse como algo que ela entendia completamente.

Apagou a luz.

A torneira pingava na cozinha.

Ela ficou ouvindo por mais tempo do que deveria antes de conseguir dormir.